Portugal lidera em energias renováveis. Mas nossas casas estão preparadas para o calor?

20 jul. 2026

Portugal lidera em energias renováveis. Mas nossas casas estão preparadas para o calor?

Há números que merecem ser comemorados, mas também analisados com cuidado.

Portugal é o país da União Europeia onde as energias renováveis têm o maior peso no consumo de energia para refrigeração doméstica, atingindo 86,6%, bem acima da média europeia. É uma posição de liderança que confirma algo que venho defendendo: a aposta portuguesa nas renováveis não é mais apenas uma promessa e começa a representar uma vantagem estratégica real.

Mas há outro fato que não podemos ignorar. Em apenas seis anos, o consumo de energia para refrigerar residências na União Europeia quase dobrou. Entre 2018 e 2024, as famílias europeias consumiram quase o dobro de energia para manter suas casas frescas durante os períodos mais quentes. O que antes poderia ser visto apenas como um desconforto sazonal está rapidamente se transformando em um problema energético, econômico, urbano e social.

Portugal está em uma posição particularmente interessante. Temos uma alta produção renovável, muitas horas de sol e condições naturais que nos permitem avançar mais rapidamente na eletrificação do consumo. No entanto, ainda temos um enorme estoque habitacional envelhecido, edifícios com isolamento térmico deficiente e muitas famílias morando em casas incapazes de responder adequadamente ao frio do inverno e ao calor do verão.

É aqui que, na minha opinião, devemos ter cuidado com celebrações fáceis. Liderar o peso das energias renováveis é extraordinariamente positivo, mas consumir energia limpa para resfriar casas ineficientes não pode ser o objetivo final. A energia mais sustentável continua sendo aquela que podemos evitar desperdiçar.

O futuro da habitação portuguesa terá inevitavelmente de passar por melhores materiais, isolamento térmico, arquitetura adaptada ao clima, sombreamento, ventilação natural, produção descentralizada de energia e tecnologias inteligentes de gestão de edifícios. Não basta instalar mais aparelhos de ar condicionado e aumentar a capacidade da rede elétrica. Precisamos de casas que precisem de menos energia para oferecer conforto.

 

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