IA. Energia verde e conectividade de Portugal e Espanha são chave para fechar o "buraco" de 480 mil milhões na produtividade europeia

22 jun. 2026

IA. Energia verde e conectividade de Portugal e Espanha são chave para fechar o

O bloqueio da Anthropic pelos EUA expôs a fragilidade tecnológica do continente e expôs a urgência por uma "IA Soberana". Estudo da consultora McKinsey revela que a Península Ibérica está posicionada na linha da frente para liderar a computação de hiperescala que tem potencial para valer quase meio bilião de euros por ano até 2030
 

Para o velho continente europeu, a Inteligência Artificial (IA) já não é uma mera questão de inovação tecnológica, é mesmo uma questão de sobrevivência económica e soberania política. Durante duas décadas, o motor económico europeu tem vindo a perder rotação, com o crescimento da produtividade do trabalho a registar uma quase estagnação de 0,2% nos anos mais recentes (2022-2025), como revela o novo relatório da McKinsey & Company, Accelerating Europe’s AI Adoption: The Role of Sovereign AI, a que o DN teve acesso em primeira mão. O estudo aponta caminhos para que bloco consiga evitar o atraso em que se viu cair face aos seus concorrentes diretos EUA e asiáticos, bem como releva as vantagens competitivas únicas que tanto Portugal como Espanha hoje têm face aos seus parceiros do norte e centro da Europa.

Desde logo, a McKinsey aponta que uma adoção acelerada de IA, sustentada por soluções soberanas, pode acrescentar nada menos que 480 mil milhões de euros por ano ao PIB europeu até 2030. Desse bolo, a fatia de leão — cerca de 416 mil milhões de euros — virá diretamente de ganhos de produtividade nas organizações que utilizam estas ferramentas, dizem os especialistas. É no fundo o fecho do "buraco" digital que hoje separa a Europa do resto do mundo tecnologicamente mais desenvolvido.

O caso Anthropic: a IA tratada como um míssil

Este estudo surge num momento crucial: a 12 de junho de 2026, o Departamento de Comércio dos EUA emitiu uma diretiva de controlo de exportação sem precedentes, ordenando à tecnológica Anthropic que bloqueasse o acesso aos seus modelos de fronteira mais avançados — o comercial Fable 5 e o ultra-especializado em cibersegurança Mythos 5 — a qualquer cidadão que não tenha nacionalidade norte-americana. Alegando preocupações de segurança nacional e o risco de "jailbreaks" que pudessem revelar vulnerabilidades de software críticas. A decisão de Washington teve um efeito global imediato: impossibilitada de filtrar a nacionalidade de centenas de milhões de utilizadores em tempo real (e até dos seus funcionários), a Anthropic viu-se forçada a desligar os modelos em todo o mundo, relegando os clientes europeus para versões anteriores.

Sem modelos de fronteira próprios, a Europa percebeu da pior forma que a sua infraestrutura de produtividade está à mercê das decisões de segurança interna (e da temperatura geopolítica) de Washington… ou de Pequim.

Entre 2020 e 2024, as empresas americanas investiram cerca de 300 mil milhões de dólares em IA — comparado com apenas 62 mil milhões na Europa, pode ler-se no estudo da McKinsey. Esta assimetria brutal de capital resultou numa dependência quase total de fornecedores externos em áreas críticas da cadeia de valor, como a cloud pública, o hardware e os modelos fundacionais, alerta a consultora.

 

A receita para mudar o panorama

A forma de responder a esta situação não passa pelo isolamento, mas sim decalcar uma solução já testada no setor aeroespacial, agora sob o nome de "IA Soberana": criar na região competências digitais críticas para garantir autonomia operacional e técnicaa através de uma estratégia industrial coordenada assente num modelo híbrido de investimento público-privado de larga escala:

A McKinsey sugere a criação de um fundo europeu de IA, gerido pelo Banco Europeu de Investimento (BEI) e cofinanciado pelos Estados-membros, capaz de injetar 15 a 20 mil milhões de euros por ano até 2030 em infraestrutura de computação e espaços de dados soberanos. O objetivo deste "capital semente" público é retirar o risco inicial do ecossistema e atrair as profundas reservas de capital privado que existem no continente — evitando assim mais fugas para destinos de elevada rentabilidade potencial, como os EUA.

O Executivo da União Europeia deverá, também, obrigar os Governos a destinar pelo menos 10% dos seus orçamentos de transição digital diretamente para a contratação pública de soluções de IA soberana, estimulando e sustentando a procura interna na fase de arranque, escrevem os especialistas.

Propõe-se ainda a criação de um Mercado Único Digital no bloco, eliminando a fragmentação burocrática dos 27 Estados-membros, o que permitirá que uma startup de IA se registe em apenas uma hora online a nível pan-europeu e ganhe escala continental de forma ágil.

 

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